• Guto Martinez

A erva que ameaça as vinhas

Plantações de cannabis apresentam incompatibilidade com vinícolas vizinhas


A imagem de belos campos de vinhas enfileiradas em Santa Barbara, na Califórnia, está ameaçada por um novo vizinho: a cannabis, recentemente legalizada e que já provocou uma corrida por terrenos para expansão da produção.


A incompatibilidade das duas plantas tem origem principalmente na facilidade em que a cannabis cresce nos campos, pois ela pode ser considerada uma erva daninha, e pode ter sua produção prejudicada por alguns dos defensivos agrícolas normalmente usados na produção vinícola. Outra diferença fundamental é que a parte utilizada na produção vinícola é o fruto, enquanto a cannabis utiliza outras partes da planta, que podem ser inutilizadas com fungicidas necessários para a defesa das vinhas, gerando responsabilidade da vinícola pela perda de produção.


O problema, aliás, pode ser ainda mais complexo: a cultura de cannabis é incompatível com praticamente qualquer outra produção agrícola, e exige testagem negativa para qualquer outra substância não-orgânica, incluindo algumas utilizadas na produção orgânica, gerando uma enorme preocupação para qualquer agricultor.


A preocupação dos produtores vinícolas é maior ainda pois o tradicional cheiro que as plantas de cannabis exalam é carregado de terpenos, uma substância que afeta os aromas do vinho de forma semelhante ao eucalipto. Uma das soluções, que é a produção e manejo em estufas de PVC, trazem outro efeito negativo: elas modificam a paisagem, que fica menos atrativa para os enoturistas, reduzindo a possibilidade de explorar essa crescente indústria que ajuda a incrementar as receitas dos produtores.


Grande parte do problema vem da falta de regulamentação na nova produção, já que muitos produtores de cannabis são pequenos, e acabam se instalando em propriedades próximas demais às áreas de cultivo de vinho. No caso específico da Califórnia, muitas das licenças a estes produtores foi dada de forma precária, o que trouxe preocupação generalizada às vinícolas de Santa Barbara.


A questão toma ainda maiores proporções quando imaginamos que diversos países vêm legalizando o consumo e a produção de cannabis: na América Latina, o Uruguai liderou este movimento, sendo que praticamente todas as regiões do país tem alguma produção vinícola. Outro caso relevante é o de Portugal, onde a produção medicinal da erva foi autorizada, e as condições ideais de produção se localizam principalmente na porção mais quente do sul do país, o Alentejo.


Enquanto os produtores mostram suas preocupações, a única saída possível é pressionar as autoridades responsáveis, para que façam uma regulamentação que garanta que as novas autorizações de produção ofereçam a segurança necessária tanto para as vinícolas quanto para as plantações de cannabis, mas os debates estão apenas começando nessa questão que promete gerar muitos atritos.

30 visualizações

Posts recentes

Ver tudo