• Guto Martinez

As novas uvas de Bordeaux

Alterações climáticas fizeram as associações de vinicultores votarem unanimemente na adição de novas variedades permitidas nos cortes


É um fato cientificamente comprovado que o clima do planeta tem sofrido variações, as quais são mais fortemente sofridas por quem não tem uma rápida capacidade de adaptação (ou um ventilador por perto): as plantas. E, claro, como a temática aqui é óbvia, os vinhedos também sofrem, o que afeta a economia de regiões que dependem em maior grau do cultivo de uvas pré-estabelecidas, como é o caso de Bordeaux.


Todos estamos familiarizados com as uvas bordalesas que compõem o famoso corte: nas tintas, as mais comuns são a Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot e até Malbec e Carménère são permitidas, embora com presença ínfima; entre as brancas, Sauvignon Blanc, Sémillon e Muscadelle são as mais presentes. Agora, alguns nomes bem diferentes poderão ser vistos na região.


As associações de produtores de Bordeaux e Bordeaux AOC aprovaram quatro novas tintas e três brancas para compor o corte e ainda permitir que o vinho ostente uma das mais conhecidas denominações do mundo, todas acostumadas a climas ligeiramente mais quentes e capazes de aportar elementos novos aos vinhos da região. São elas:


Touriga Nacional

Uma das mais conhecidas variedades portuguesas, possui casca escura e grossa, e é uma das uvas mais conhecidas nos vinhos do Porto, Dão e Douro, mas até no agreste Alentejo ela marca boa presença.


Arinarnoa

Resultado da cruza entre Tannat e Cabernet Sauvignon pelo INRA, essa criação de 1956 enfrenta a amplitude climática do Líbano, encara o calor de Penedès, e tem presença no Uruguai, na Argentina e até no Rio Grande do Sul.


Castets

Variedade da região dos Pireneus, no sudoeste francês, é conhecida por sua resistência a fungos. O grande problema é que existe menos de um hectare dessa variedade na França, e provavelmente menos do que isso no resto do mundo, o que a torna praticamente extinta.


Marselan

A cruza de Cabernet Sauvignon e Garnacha foi feita em 1961, na cidade de Montpellier, sempre ofereceu alta resistência com alta qualidade, mas nunca foi forte em rendimento, uma característica muito atrativa para quem pretende oferecer o melhor em seus rótulos. Também presente no Languedoc e no sul do Rhône, na França, em Penedès, na Espanha, na Califórnia, na Argentina, no Brasil e até mesmo na China, país onde é a grande aposta (o próprio Château Lafite-Rothschild usa a variedade por lá).


Alvarinho

A pequena uva branca responsável por grandes vinhos da região entre Portugal e a Espanha não é exatamente um exemplo de resistência, mas traz mais flexibilidade no que diz respeito à variação climática: é cultivada nos Estados Unidos desde a Califórnia até Washington (o estado), na Austrália, no Uruguai e na Nova Zelândia. Versatilidade parece ser seu forte.


Petit Manseng

A variedade responsável por excelentes brancos na Occitânia, região mais mediterrânea que Bordeaux, é também cultivada no País Basco, bem como na Virgínia, na Carolina do Sul e na Geórgia, nos EUA. Uma velha conhecida, portanto.


Liliorila

A cruza de Baroque com Chardonnay feita em 1956 pelo INRA é conhecida pelo seu potencial aromático e relativamente baixa acidez, por enquanto ainda não bem explorado - apenas algumas vinícolas utilizam essa variedade em Vacquiers, norte de Toulouse.


A adição das novas uvas não é exatamente uma surpresa: dos 20 dias mais quentes na região desde 1920, a maioria aconteceu depois do ano 2000, num intervalo cada vez menor. A decisão pode, inclusive, reverberar em regiões como a Borgonha, onde a Gamay pode assumir uma posição maior frente à Pinot Noir, ou abrir novas áreas onde a produção vinícola antes não era possível, como já vemos com a produção de espumantes no Reino Unido.


Apesar de tantas novidades, não espere grandes alterações na composição do corte bordalês: apenas 5% dos vinhedos podem ser plantados com essas espécies, e só 10% do vinho pode ser composto por elas; as denominações mais famosas, como Pauillac e Saint-Émilion não devem sequer ser afetadas pela permissão, e continuam como estão. Afinal, ninguém está reclamando dos vinhos ali produzidos.

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