Sommelier de água: tem cabimento?
- Guto Martinez

- há 4 dias
- 3 min de leitura
Pode não parecer, mas o que bebemos entre uma taça e outra tem reflexo e faz diferença na nossa percepção enogastronômica

Durante uma degustação de vinhos — ou mesmo numa refeição bem elaborada — raramente prestamos atenção à água que acompanha a mesa. Mas, para quem leva a experiência sensorial a sério, a água não é neutra. Ela influencia sabores, aromas, textura e até a forma como percebemos um vinho.
É justamente aí que entra uma figura ainda pouco conhecida: o sommelier de água.
O que é um sommelier de água?
Assim como o sommelier de vinhos, o sommelier de água é um profissional treinado para avaliar, selecionar e harmonizar águas minerais de acordo com alimentos, bebidas e contextos específicos.
Em restaurantes de alta gastronomia — especialmente na Europa e no Japão — cartas de água já não são novidade. Elas apresentam diferentes origens, níveis de mineralização, tipos de gás e perfis sensoriais.
A ideia central é simples: a água certa pode valorizar uma comida ou um vinho; a errada pode apagá-los.
Água não é tudo igual
Toda água mineral tem uma assinatura química própria, determinada pelo solo e pelas rochas por onde ela passa. Os principais fatores que influenciam a percepção sensorial são:
Mineralização (resíduo seco)
Baixa mineralização: mais leve, delicada, quase imperceptível.
Alta mineralização: mais densa, marcante, às vezes salina ou metálica.
pH
Águas mais ácidas trazem frescor.
Águas mais alcalinas tendem a ser mais macias em boca.
Presença ou não de gás
Sem gás: limpa o paladar de forma suave.
Com gás: estimula a salivação, “acorda” o palato.
Água e vinho: aliados ou inimigos?
Durante a degustação, a água cumpre dois papéis principais: hidratar e limpar o paladar. Mas nem toda água faz isso da mesma forma.
Alguns exemplos práticos:
Vinhos delicados (espumantes finos, brancos leves, Pinot Noir)
→ pedem águas pouco mineralizadas, sem gás, para não mascarar sutilezas.
Vinhos estruturados (tintos potentes, vinhos com madeira)
→ podem tolerar águas com um pouco mais de mineralidade, desde que sem gás agressivo.
Degustações longas
→ águas neutras ajudam a manter o foco sensorial ao longo do tempo.
Águas muito minerais ou com gás excessivo podem acentuar o álcool, ressaltar amargor ou interferir na acidez do vinho.
Água e comida: harmonização também existe
A lógica da harmonização se aplica igualmente à gastronomia:
Pratos delicados (sushi, frutos do mar, veganos leves)
→ águas leves, pouco mineralizadas.
Pratos gordurosos ou intensos (carnes, queijos curados, frituras)
→ águas com gás ajudam a limpar a boca e equilibrar a sensação de peso.
Cozinha baseada em ervas e ingredientes aromáticos
→ águas neutras preservam sabores naturais.
Exemplos de águas brasileiras e como usá-las
Crystal (sem gás)
Perfil: baixa mineralização, sabor suave e pouco salino.
Uso ideal: perfeita para limpar o paladar entre uma taça e outra, principalmente em degustações de espumantes delicados, brancos leves e rosés.
Minalba (sem gás / com leve gás)
Perfil: mineralização equilibrada com opção de água com gás sutil.
Uso ideal: muito versátil — funciona tanto com vinhos brancos como para harmonizar com pratos leves e entradas.
São Lourenço (natural ou com gás)
Perfil: mineralização média e notas mais perceptíveis em boca.
Uso ideal: ótima para acompanhar pratos mais ricos em gordura (como queijos curados ou carnes), pois o gás ajuda a “limpar” o paladar.
Ibirá (com gás)
Perfil: bolhas firmes e presença mineral mais intensa.
Uso ideal: ideal para intercalar com vinhos intensos ou gastronômicos, especialmente tintos estruturados.
Prata (sem gás)
Perfil: leve, suave e ideal para “resetar” as papilas.
Uso ideal: água de transição entre garrafas ou pratos delicados, preservando a sensorialidade.
Uma tendência que cresce
O interesse por água como elemento gastronômico cresce à medida que o consumidor valoriza experiência, saúde e sensorialidade. Cursos de sommelier de água já existem em países como Alemanha, Itália e Japão, e algumas cartas especializadas começam a surgir em restaurantes que priorizam experiências completas.
No Brasil, ainda é um tema emergente — mas cada vez mais presente em eventos de degustação, restaurantes autorais e experiências premium de enogastronomia.
No fim das contas…
Pensar na água é pensar na experiência como um todo.
Ela não precisa ser protagonista — mas jamais deveria ser invisível.
Da próxima vez que você estiver degustando um vinho especial ou preparando uma refeição com cuidado, vale a pergunta: essa água está ajudando… ou atrapalhando?








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