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  • Guto Martinez

A cerveja dos Faraós

Como era o fermentado que servia de alimento e remédio para os egípcios antigos?


Diversas evidências mostram que a cerveja era um item muito comum na dieta dos povos antigos, utilizada também para celebrações religiosas e propriedades curativas, mas qual a diferença dessa bebida para o que chamamos hoje de cerveja? Uma equipe de pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém se dedicou a responder essa questão, e o resultado foi uma bebida de boa qualidade com uma história de 5 mil anos.


Qualquer cereal que contenha açúcar pode sofrer a mesma fermentação devido à existência de leveduras no ar, mas para chegar ao resultado mais preciso, os pesquisadores fizeram buscas em cerâmicas antigas que ainda continham traços de organismos utilizados num período de 3000 a 800 a.C., que foram geneticamente mapeados e "ressuscitados" na produção do experimento.


A pesquisa conseguiu identificar semelhanças dessas leveduras com as que são utilizadas até hoje em cervejarias tradicionais da África, e na produção do "tej", uma variedade etíope de hidromel. Essa foi considerada uma das maiores descobertas da pesquisa: alguns dos exemplares de levedo das cerâmicas antigas ainda continham espécimes vivas com centenas de anos, mesmo após exposição ao sol.


Após identificar a levedura mais próxima à utilizada, foi selecionado o cereal a ser maltado - no caso egípcio, uma variedade de trigo chamado "farro", comum no mundo antigo, mas hoje utilizada apenas em regiões montanhosas da Europa e da Ásia. A bebida foi fermentada de forma praticamente espontânea, apenas com a adição da levedura selecionada, e colocada em temperatura ligeiramente mais elevada, para imitar as condições locais.


O resultado foi surpreendente: uma bebida de coloração amarelo-esverdeado suave, com uma sensação de gás, e ligeiramente turva. Quem degustou, notou uma sensação mais azeda com notas picantes e cereais, refrescante, com boa acidez e muito agradável - comparável com um vinho ou uma cidra, alguns disseram. Uma outra diferença com a nossa cerveja foi no teor alcoólico: aparentemente, a bebida produzida tinha uma capacidade muito maior de "alcoolizar", o que está de acordo com a imagem de beberrões que povos como os Filisteus ainda têm.


O principal objetivo dessas pesquisas não é apenas trazer de volta a bebida que era consumida, o que é mais uma curiosidade histórica que uma necessidade, mas mostrar como eram os hábitos alimentares e como eles ainda se ligam à nossa realidade. Os achados, mais que interessantes, demonstram que nossa história parece bem mais ligada aos povos antigos do que pensamos, e que nossos hábitos, bons ou maus, ainda permanecem os mesmos.

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