©2019 by Vinho e Gastronomia. Proudly created with Wix.com

  • Guto Martinez

Chega de Pinot Grigio?

Produtores italianos repensam a estratégia com a queda nas vendas da uva mais importante do Vêneto


A Pinot Grigio italiana se tornou um imenso sucesso comercial após a entrada no mercado americano na década de 1980, impulsionando a produção na região italiana conhecida como Ter Venezie (Veneto, Friuli-Veneza Giulia e Trentino-Alto Adige) que passou a vender imensas quantidades também para o Reino Unido e a Alemanha. Ao que parece, essa "era de ouro" dá sinais de ter acabado.


Criada em 2016, a DOC Pinot Grigio delle Venezie viu sua segunda safra ser engarrafada com um enorme desafio em mãos: uma queda abrupta do mercado internacional, responsável por 95% das vendas, e que resulta de um processo que combina a chamada "maturidade" do mercado com a concorrência internacional e a quebra de várias redes do chamado "casual dining" de comida italiana, principalmente britânicas.


O processo de maturidade de mercados resulta da produção muitas vezes incontrolada de um tipo de vinho e que acaba gerando muitos rótulos de qualidade duvidosa que inundam o mercado, que passa a se tornar cada vez mais seletivo e aberto a opções de melhor qualidade. É o que houve com Chianti no "fiasco" de 1960 a 1980, e mais recentemente com o Lambrusco, ainda identificado como um vinho doce, barato e pouco complexo.


Com intenção de evitar maiores problemas, o Pinot Grigio delle Venezie DOC Consorzio realizou um congresso com os produtores, que se tornaram dependentes dos imensos volumes exportados (mais de 1,5 milhão de hectolitros em 2018) e que agora precisam analisar as opções em relação a cada mercado.


No caso britânico, a resposta pode passar pela melhora na qualidade, algo que a criação de uma DOC muito abrangente pode atrapalhar, já que os produtores estão acostumados a entregar grandes volumes com pouco caráter territorial e identidade. Uma resposta possível seria subdividir essa imensa região em subregiões demarcadas menores, como é o caso de Chianti e da mais recente Prosecco DOC.


O mercado americano pode ser mais complexo, já que a competição doméstica faz os consumidores preferirem a opção mais barata, lembrando que as sobretaxações do governo Trump dificultam a entrada do vinho europeu por lá. Talvez também seja o caso de investir no terroir, e tornar este um objeto de desejo, numa "Brunellização" dessa nova DOC que ainda sofre com a pecha do Pinot Grigio ser um vinho "simples".


Embora a queda recente no consumo do Pinot Grigio seja preocupante, é preciso lembrar que este sucesso permitiu a fundação do Consorzio num primeiro passo na consolidação da denominação; afinal, a Pinot Grigio produz excelentes exemplares na Alsácia, onde é conhecida pelo nome original de Pinot Gris, e pode conquistar um paladar mais exigente. O Velho Mundo, afinal, sabe se reinventar quando necessário.

12 visualizações