Família Fernández Rivera: a tradição espanhola em diferentes expressões

Da histórica Ribera del Duero às terras de La Mancha e Zamora, a família por trás do icônico Pesquera construiu um legado que celebra a Tempranillo, a diversidade dos terroirs espanhóis e a personalidade de cada vinho
Por Guto Martinez

Algumas histórias do vinho são inseparáveis da trajetória de uma família. É o caso da Fernández Rivera, cujo percurso se confunde com a ascensão da Ribera del Duero entre as grandes regiões produtoras da Espanha. À frente desse projeto estiveram Alejandro Fernández e Esperanza Rivera, que transformaram uma iniciativa familiar em um grupo com quatro vinícolas e uma presença internacional consolidada.
Tudo começou em 1972, quando o casal adquiriu uma antiga adega de pedra do século XVI e deu os primeiros passos na produção de seus próprios vinhos. Três anos depois, chegou ao mercado o Tinto Pesquera, rótulo que se tornaria o grande emblema da família e ajudaria a revelar o potencial da Tempranillo cultivada na Ribera del Duero.
O reconhecimento internacional veio em um momento decisivo para a região. Em 1982, a Ribera del Duero obteve o reconhecimento oficial de sua Denominação de Origem, e os vinhos da família já contribuíam para despertar o interesse de críticos e consumidores por esse território. O prestígio alcançado por Tinto Pesquera, especialmente por seu rótulo Janus, reforçou a reputação de Alejandro Fernández como um dos nomes importantes da vitivinicultura espanhola.
Uma família, diferentes territórios
O crescimento da Fernández Rivera não se limitou à Ribera del Duero. Ao longo das décadas, a família desenvolveu projetos em outras regiões, sempre com o propósito de demonstrar o potencial de seus respectivos territórios.
Na própria Ribera del Duero, a Condado de Haza ampliou o repertório da família com vinhos que também conquistaram reconhecimento internacional. Em La Mancha, a vinícola El Vínculo nasceu em 1999 como uma homenagem à união entre as duas Castelas e com a ambição de mostrar que a região poderia produzir vinhos de grande qualidade. O projeto trabalha tanto com a Tempranillo quanto com a Airén, variedade branca tradicional espanhola que ganha uma interpretação especialmente interessante no Alejairén.
Já em Zamora, próximo à região vitivinícola de Toro, a Dehesa La Granja revela outra faceta do trabalho da família. Instalada em uma propriedade histórica, com uma adega subterrânea construída no século XVIII, a vinícola combina a produção de vinhos com outras atividades agrícolas e gastronômicas. Embora seus vinhedos se estendam parcialmente pela área da DO Toro, seus vinhos são comercializados sob a denominação Vino de la Tierra de Castilla y León.
Essa diversidade de projetos permite compreender a identidade da família para além de um único rótulo ou de uma única denominação de origem. A Tempranillo ocupa um lugar central, mas cada vinícola revela uma interpretação própria da variedade e de seu ambiente.
Quatro vinhos, quatro personalidades
Alejairén Crianza Blanco 2022 — El Vínculo
A Airén, uma das variedades brancas mais tradicionais da Espanha, ganha aqui uma interpretação que vai além do perfil simples e descomplicado frequentemente associado a ela. Elaborado com fermentação espontânea em barricas de carvalho francês e tanques de aço inoxidável, o Alejairén Crianza passa por pelo menos 14 meses de estágio em madeira antes de seguir para a garrafa.
O resultado combina frescor e complexidade aromática com boa estrutura, mostrando como uma variedade tradicional pode alcançar profundidade e potencial de guarda quando trabalhada com cuidado. Um branco que convida a olhar para La Mancha por uma perspectiva menos óbvia e a descobrir novas possibilidades para a Airén.
El Vínculo Crianza 2021 — La Mancha
Um dos destaques da seleção quando o assunto é relação entre preço e qualidade, o El Vínculo Crianza mostra uma faceta potente e saborosa da Tempranillo cultivada em La Mancha. Produzido a partir de vinhas velhas, apresenta personalidade marcante e uma estrutura que o aproxima, em espírito, dos tintos mais emblemáticos da família — daí a associação informal com o chamado “Pesquera de La Mancha”.
O estágio de 18 meses em barricas, seguido por mais seis meses em garrafa, contribui para integrar os elementos e dar profundidade ao conjunto. É um tinto que aposta na expressão da fruta, na intensidade e na presença em boca, sem perder de vista a proposta de oferecer uma experiência de grande apelo para quem aprecia os vinhos espanhóis.
Dehesa La Granja 2021 — Zamora/Toro
Na Dehesa La Granja, a Tempranillo assume uma expressão própria, associada ao projeto familiar desenvolvido em Zamora. As vinhas velhas dão origem a um vinho de concentração e profundidade, no qual frutas maduras, especiarias e notas amadeiradas compõem um perfil intenso e envolvente.
Em boca, os taninos sedosos ajudam a equilibrar a estrutura, enquanto a persistência prolongada reforça a sensação de um vinho elaborado para quem aprecia tintos de personalidade. A combinação de intensidade, textura e complexidade faz dele uma opção especialmente interessante para os amantes dos vinhos espanhóis — e um forte candidato à categoria de best buy, dependendo do preço encontrado no mercado.
Pesquera Crianza 2021 — Ribera del Duero
Um clássico que ajudou a colocar a Ribera del Duero no mapa dos grandes vinhos espanhóis, o Pesquera Crianza permanece como uma referência para compreender a força e a versatilidade da Tempranillo nessa região. A reputação construída pela vinícola ao longo das décadas está associada à capacidade de produzir tintos intensos, com fruta generosa e estrutura, sem abrir mão da elegância.
Na safra 2021, o vinho apresenta um perfil opulento, encorpado e suculento, com aromas de frutas vermelhas maduras acompanhados por nuances balsâmicas, especiarias e notas de baunilha provenientes do estágio em carvalho americano. No paladar, a textura sedosa e os taninos persistentes sustentam a fruta e prolongam a experiência.
É uma expressão clássica da identidade de Pesquera: um tinto que combina potência, generosidade e facilidade de apreciação, mantendo o lugar de destaque que a marca conquistou na história recente do vinho espanhol.

Um legado que continua evoluindo
A história da Fernández Rivera mostra como uma iniciativa familiar pode transformar a percepção de uma região e, ao mesmo tempo, continuar explorando novos caminhos. O sucesso de Pesquera foi o ponto de partida, mas a expansão para outras áreas da Espanha revelou uma ambição maior: demonstrar que a qualidade do vinho espanhol não se resume a uma única denominação de origem.
Da Airén de La Mancha à Tempranillo de Ribera del Duero e Zamora, os quatro rótulos apresentados revelam diferentes combinações de tradição, identidade regional e escolhas de elaboração. Em comum, está a busca por vinhos expressivos, que respeitam suas origens e mostram a riqueza de um país cuja diversidade vitivinícola continua merecendo ser descoberta.





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