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Matías Riccitelli: traduzindo os extremos da Argentina em grandes vinhos

  • Foto do escritor: Guto Martinez
    Guto Martinez
  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

Ao buscar vinhedos nos limites da viticultura, o produtor argentino demonstra que a verdadeira identidade do vinho nasce da interpretação do terroir, e não da repetição de fórmulas consagradas

 

Por Guto Martinez

 

Matías Riccitelli e seu República del Malbec 2023
Matías Riccitelli e seu República del Malbec 2023

Durante muito tempo, Mendoza foi apresentada ao mundo quase como uma única região produtora de vinhos. Bastava mencionar um Malbec argentino para que viessem à mente vinhos intensos, maduros e generosos em fruta. A realidade, entretanto, é muito mais complexa.

 

Para Matías Riccitelli, Mendoza não é uma única paisagem, mas um mosaico de terroirs capazes de produzir interpretações completamente diferentes de uma mesma variedade. Foi essa convicção que o levou a explorar algumas das áreas mais altas da viticultura argentina, sempre buscando lugares onde altitude, clima, solo e tempo pudessem revelar a expressão mais autêntica de cada parcela.

 

Foi assim que, mais do que um produtor de vinhos, Riccitelli tornou-se um intérprete da diversidade dos terroirs argentinos para a produção vitivinícola.

 

Muito além da altitude

 

Embora seja frequentemente associado aos vinhos de altitude, o trabalho de Matías Riccitelli vai muito além da simples busca por vinhedos elevados.

 

A vinícola concentra seus projetos em diferentes regiões, escolhidas por características bastante específicas.

 

Em Las Compuertas, na parte mais alta de Luján de Cuyo, encontram-se antigas vinhas de Malbec que preservam uma das expressões mais tradicionais da variedade. La Carrera, no Vale do Uco, destaca-se como uma das regiões mais frias de Mendoza, enquanto Gualtallary tornou-se referência internacional pelos solos calcários e pela grande mineralidade de seus vinhos. Já Los Chacayes leva a viticultura praticamente ao limite da produção na Cordilheira dos Andes. Mais ao sul, na Patagônia, o frescor não vem da altitude, mas da latitude extrema, oferecendo condições ideais para variedades de perfil mais delicado.

 

Em comum, todas essas regiões compartilham uma característica: são lugares onde a natureza impõe desafios constantes e recompensa apenas quem está disposto a compreendê-la.

 

O vinho certo para cada lugar

 

Ao longo da apresentação, ficou claro que a filosofia de Matías Riccitelli se distancia da ideia de produzir vinhos para atender tendências de mercado, pois seu objetivo não é controlar completamente o resultado final, mas compreender cada vinhedo e conduzir a vinificação de forma que o próprio terroir determine o caminho. Em vez de repetir receitas, procura interpretar o que cada parcela tem de melhor a oferecer.

 

Essa abordagem explica por que a vinícola produz cerca de quarenta rótulos diferentes, muitos deles elaborados a partir das mesmas variedades, mas com personalidades completamente distintas: mais do que selecionar uvas, Riccitelli escolhe os lugares capazes de revelar a melhor expressão de cada uma.

 

A paciência também faz parte do terroir

Trabalhar em condições extremas exige aceitar que a natureza possui seu próprio ritmo. Algumas parcelas levam anos para demonstrar todo o seu potencial, enquanto determinados projetos desafiam a lógica da produção comercial.

 

Talvez o melhor exemplo dessa filosofia seja o Semillon de Flor, que permanece três anos sob a ação da flor antes de chegar à garrafa. O resultado demonstra que, para Riccitelli, o tempo também faz parte da interpretação do terroir. A paciência deixa de ser apenas uma virtude do produtor para tornar-se um ingrediente essencial do vinho.

 

Notas de degustação

 


Riccitelli Chardonnay Gualtallary 2025

Produzido a partir de vinhedos situados a cerca de 1.400 metros de altitude sobre solos calcários e pedregosos, passa doze meses em foudre, preservando a expressão da fruta sem excessiva influência da madeira. O nariz revela frutas de caroço e delicadas notas florais, enquanto a boca mostra perfil mais austero, preciso e equilibrado, sustentado por excelente frescor.

 

Riccitelli Viñas Extremas La Carrera Sauvignon Blanc 2025

Originário de uma das regiões mais frias do Vale do Uco, a cerca de 1.700 metros de altitude, apresenta perfil herbáceo e mineral, acompanhado por notas cítricas que remetem ao limão. Em boca, combina volume e tensão, terminando limpo e elegante, com evidente potencial de envelhecimento.

 

Riccitelli Old Vines Semillon 2024

Produzido a partir de vinhas antigas de Rio Negro, na Patagônia, demonstra como a latitude também pode ser responsável por grande frescor. O nariz apresenta delicadas notas florais, mel e frutas amarelas discretas. Em boca, mostra excelente equilíbrio entre concentração e acidez, revelando um perfil bastante distinto dos Semillon tradicionalmente encontrados em Mendoza.

 

Riccitelli de Flor Semillon 2022

Elaborado a partir do mesmo vinho-base, mas mantido por três anos sob flor, revela uma complexidade singular. Aromas de levedura, amêndoas, casca de cítricos e discreta salinidade se unem a uma boca intensa, longa e profundamente gastronômica. Um vinho raro, original e de grande potencial de guarda.

 

Riccitelli Old Vines Pinot Noir 2024

Segundo o próprio Matías, os antigos vinhedos da Patagônia representam a única origem de Pinot Noir da vinícola — e ele não pretende plantar novos vinhedos da variedade em Mendoza, por entender que o terroir não oferece as condições ideais para essa uva. O resultado é um Pinot Noir elegante, com aromas de cerejas, framboesas, violetas, especiarias e delicadas notas terrosas. Em boca, apresenta taninos refinados, boa persistência e grande equilíbrio.

 

Gualtallary Malbec 2024

Uma expressão bastante elegante da Malbec de altitude. A intensidade de frutas vermelhas e negras aparece acompanhada por discretas notas florais, enquanto a boca privilegia frescor, precisão e taninos presentes, mas perfeitamente integrados.

 

Viñas Extremas Los Chacayes Malbec 2023

Produzido em uma das áreas mais extremas da vinícola, a cerca de 1.500 metros de altitude, onde as baixas temperaturas noturnas favorecem maior preservação da acidez, apresenta fruta mais contida, especiarias evidentes e marcante mineralidade. A boca é potente, suculenta e persistente, refletindo toda a personalidade desse terroir singular.

 

República del Malbec 2023

O encerramento da degustação ficou por conta de um dos rótulos mais emblemáticos da vinícola. O República del Malbec impressiona menos pela potência do que pela extraordinária harmonia entre fruta, frescor e profundidade. Sedutor desde o primeiro contato e extremamente equilibrado em boca, sintetiza a filosofia de Matías Riccitelli: produzir vinhos que expressem o lugar de onde nascem, sem excessos e sem concessões.

 

Muito além da Malbec

Ao final da degustação, fica evidente que a altitude, sozinha, não explica os vinhos de Matías Riccitelli. Ela é apenas o ponto de partida de uma busca muito maior: compreender como cada solo, cada clima e cada paisagem podem revelar uma identidade própria.

 

Em um país frequentemente resumido à Malbec, Riccitelli demonstra que a verdadeira riqueza da Argentina talvez esteja justamente na sua diversidade. Seus vinhos não procuram repetir um estilo consagrado, mas traduzir paisagens. Mais do que isso, mostram que compreender um grande vinho começa por compreender o lugar de onde ele nasce.

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