Los Cerros de San Juan: a tradição uruguaia que desafia o conceito de Novo Mundo
- Guto Martinez

- 21 de jul.
- 4 min de leitura
Fundada em 1854, a vinícola mais antiga do Uruguai demonstra que a tradição vitivinícola do país reúne história, terroir e uma profunda dedicação aos vinhedos
Por Guto Martinez

Quando pensamos em vinhos do chamado "Novo Mundo", normalmente imaginamos uma história recente, marcada pela inovação, pela tecnologia e pela ausência de uma tradição secular como a encontrada em países europeus. No entanto, basta atravessar o Rio da Prata para perceber que essa classificação nem sempre faz justiça à realidade.
Fundada em 1854, próxima à histórica Colônia do Sacramento, a Los Cerros de San Juan é considerada a vinícola mais antiga do Uruguai e representa um capítulo fundamental da vitivinicultura do país. Em seus mais de 170 anos de história, preservou não apenas edifícios históricos — como a centenária adega de pedra construída no século XIX —, mas também uma filosofia de produção que continua encontrando no vinhedo a origem dos grandes vinhos.
Essa impressão ficou ainda mais evidente durante uma degustação conduzida na presença do proprietário da vinícola. Mais do que falar sobre barricas, técnicas de vinificação ou equipamentos modernos, sua atenção voltava constantemente para o campo, para o cultivo das videiras e para o respeito ao terroir, uma visão que resume uma das maiores verdades do vinho: antes de existir um grande enólogo, existe uma grande agricultura.
A localização da propriedade, entre o Rio San Juan e o Rio da Prata, proporciona uma forte influência marítima, responsável por preservar a acidez das uvas e favorecer uma maturação equilibrada, características percebidas ao longo de toda a degustação. Embora tenham sido provados um espumante rosé de qualidade ímpar e dois brancos bastante agradáveis, é nos tintos que a Los Cerros de San Juan reafirma sua personalidade e a identidade do vinho uruguaio.
A Los Cerros de San Juan representa muito mais do que uma vinícola histórica. Sua trajetória mostra que tradição e inovação não são conceitos opostos, mas complementares. Ao mesmo tempo em que preserva um patrimônio iniciado em meados do século XIX, a propriedade demonstra vitalidade para produzir espumantes refinados, brancos de excelente frescor e tintos que expressam com autenticidade o caráter do terroir uruguaio.
Se ainda existe quem associe o Uruguai exclusivamente à Tannat, a experiência proporcionada pelos vinhos provados mostra que o país tem muito mais a oferecer. E, curiosamente, é justamente sua vinícola mais antiga quem melhor demonstra que a história do vinho uruguaio já atingiu uma maturidade suficiente para falar com voz própria entre os grandes produtores do continente.
Notas de Degustação

Extra Brut Rosé
A prova começou com um excelente espumante elaborado pelo método tradicional a partir da cofermentação de Pinot Noir e Chardonnay em partes iguais. Delicado na coloração rosé-salmão e elegante nos aromas florais e de frutas vermelhas, impressiona pela acidez vibrante e pela precisão do conjunto. Trata-se de um espumante de vocação gastronômica, embora seja daqueles vinhos que dispensam qualquer acompanhamento: basta uma taça para justificar a experiência. Infelizmente, sua produção limitada faz com que o rótulo ainda não esteja disponível no mercado brasileiro.
De La Colonia Albariño-Chardonnay 2024
Este branco aposta na leveza e na descontração, oferecendo aromas de maçã verde, frutas de caroço e delicadas notas florais, aliados a uma boca untuosa, equilibrada por uma agradável acidez, resultando em um branco leve, versátil e bastante agradável.
Cuna de Piedra Reserve Chardonnay
O segundo branco provado revela um estilo mais estruturado, preservando o frescor característico da variedade através de notas de frutas brancas e flores, com textura elegante e equilíbrio que o tornam um excelente companheiro para dias quentes e harmonizações leves.
Cuna de Piedra Reserve Tannat 2022
Se é nos tintos que o Uruguai reafirma sua personalidade, este rótulo demonstra que a principal uva uruguaia pode privilegiar a fruta sem abrir mão da identidade. Amoras, ameixas maduras e especiarias aparecem em primeiro plano, enquanto a madeira atua como complemento da fruta, jamais como protagonista. A boca mantém a rusticidade característica da variedade, sustentada por boa acidez e taninos presentes, mas bem integrados.
Maderos de San Juan Cabernet Franc Gran Reserva
De maior estrutura, este grande vinho apresenta aromas intensos de frutas negras maduras, pimenta-preta, anis e discretas notas terciárias já em desenvolvimento. Em boca, destaca-se pelo equilíbrio entre corpo, acidez e taninos refinados, revelando grande aptidão gastronômica.
Maderos de San Juan Tannat Gran Reserva.
Mais do que um grande vinho, ele representa uma interpretação contemporânea daquela que se tornou a variedade emblemática do Uruguai. Sem abrir mão da potência típica da Tannat, entrega um conjunto surpreendentemente elegante. Frutas negras maduras, ameixas, especiarias quentes e delicadas notas florais convivem em perfeita harmonia, enquanto a boca revela textura aveludada, persistência prolongada e um discreto toque adocicado que amplia a sensação de equilíbrio. É um vinho que traduz com precisão a evolução do estilo uruguaio: menos voltado à força pela força e cada vez mais comprometido com a elegância.
Mil 2020
Produzido em edição especial, este vinho evidencia o perfil mais ambicioso da Los Cerros de San Juan. Composto por composto por Tannat, Cabernet Sauvignon, Merlot, Tempranillo e Pinot Noir, envelhecido por 24 meses em barricas de carvalho francês. Estruturado e elegante, apresenta grande concentração de fruta, acompanhada por notas de especiarias e madeira muito bem integrada. Em boca, revela excelente equilíbrio entre potência e frescor, taninos maduros e um final longo e persistente, demonstrando vocação para evolução em garrafa.
Pentavarietal
Grande protagonista da prova, o Pentavarietal leva a proposta de excelência e identidade uruguaia a outro patamar. Elaborado a partir de um corte de cinco variedades de colheitas de diferentes anos, impressiona pela extraordinária complexidade aromática e pela perfeita integração entre fruta, madeira e evolução. Na boca, alia profundidade, elegância e textura sedosa, sustentadas por uma acidez precisa que confere equilíbrio a um vinho de grande concentração. Longo, refinado e extremamente harmonioso, foi, sem dúvida, o melhor vinho uruguaio que já tive a oportunidade de provar.





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