Toro de Piedra apresenta nova fase e aposta em qualidade acessível sem abrir mão de ambição enológica
- Guto Martinez

- há 13 minutos
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Em degustação comandada pelo enólogo Benoît Fitte, Viña Requingua mostrou como a marca chilena busca crescer em qualidade, reforçar identidade regional e preparar o lançamento de novos rótulos super premium
Por Guto Martinez

A Toro de Piedra, uma das marcas chilenas mais reconhecidas entre os vinhos finos de perfil acessível no mercado brasileiro, apresentou em São Paulo uma degustação que deixou clara sua intenção de dar um passo além. Mais do que reafirmar o posicionamento que a tornou popular entre os consumidores, a marca da Viña Requingua, sediada em Sagrada Família, no Valle de Curicó, mostrou que vive uma fase de amadurecimento: quer crescer em qualidade, aprofundar sua identidade regional e provar que a acessibilidade não precisa ser incompatível com ambição enológica.
A apresentação foi conduzida pelo enólogo Benoît Fitte, que mostrou oito vinhos e destacou a filosofia familiar da vinícola, centrada em valores tradicionais de produção, confiança do consumidor e foco na satisfação de quem está à mesa. O discurso, aliás, parece refletir bem o momento da marca: a Toro de Piedra aposta em rótulos clássicos, generosos e confiáveis, com forte apelo gastronômico e capacidade de dialogar com o paladar brasileiro, inclusive em harmonizações evidentes com a culinária local, como o churrasco ou o pirarucu.
Não por acaso, a marca sustenta números expressivos: segundo foi destacado durante o encontro, o Toro de Piedra Gran Reserva é hoje o Gran Reserva mais vendido do Chile e figura entre os cinco mais vendidos do Brasil, um indicativo de que a marca soube ocupar um espaço importante entre consumidores que buscam vinhos finos de bom desempenho, com preços competitivos e estilo facilmente reconhecível.
O grande mérito da degustação, no entanto, foi mostrar que a Toro de Piedra não pretende se acomodar nesse território de conforto. Embora siga muito bem posicionada entre os rótulos mais acessíveis, a marca vem construindo um movimento claro de elevação qualitativa, com atenção maior à expressão regional, ao trabalho de parcelas e ao desenvolvimento de vinhos com maior ambição.
A Toro de Piedra trabalha com um conceito bastante eficiente: vinhos de perfil mais acessível, mas que preservam identidade regional e correção técnica. Em vez de buscar apenas impacto imediato, a marca parece querer ocupar o espaço do vinho confiável — aquele que o consumidor compra sabendo o que esperar, mas que, ao mesmo tempo, consegue entregar algo além do básico.
Em termos sensoriais, os vinhos da linha se revelou marcada por um conjunto de atributos recorrentes, definidos pelo enólogo em quatro palavras: fresco, frutoso, "jugoso" (algo como suculento) e complexo. São rótulos que falam com clareza, sem abrir mão de certo refinamento, e que encontram no Brasil um terreno fértil justamente por sua versatilidade à mesa, mas foi na apresentação dos lançamentos da novíssima linha Super Premium que a degustação revelou com mais clareza a nova ambição da marca. Os novos rótulos, ainda inéditos no Brasil e no Chile, mas que devem chegar em breve ao mercado e merecem atenção especial: Huaquén e Ícono, ambos inseridos em uma nova proposta para a marca.
O Huaquén Carmenère 2022 surge como uma leitura precisa de uma das uvas mais emblemáticas do Chile — talvez aquela que, entre tantas exploradas no país, melhor consiga traduzir uma identidade nacional reconhecível, mostrando uma leitura bem calibrada da variedade e um domínio preciso do seu manejo.
Já o Ícono Syrah 2021 representa uma escolha ainda mais interessante: em vez de recorrer à quase hegemônica Cabernet Sauvignon, que ocupa cerca de um terço da superfície plantada chilena, a vinícola opta pela Syrah como demonstração de que o país pode entregar grandes vinhos também a partir de castas menos óbvias. Representante do potencial máximo da vinícola, a escolha representa quase um manifesto de que, quando bem conduzida, essa casta consegue expressar tipicidade mas também a territorialidade chilena.
Essa decisão tem peso simbólico. Ao escapar da rota mais previsível, a Toro de Piedra sugere que seu projeto de alta gama não quer apenas repetir fórmulas de mercado, mas afirmar personalidade.
Confiabilidade, mas com mais relevância
No fim, a impressão deixada pela degustação é bastante clara: a Toro de Piedra quer continuar sendo uma marca confiável, reconhecível e acessível, mas não deseja permanecer restrita a esse lugar. Há um movimento evidente de qualificação, de refinamento e de ampliação de repertório.
Isso talvez explique por que a marca ainda conversa tão bem com o consumidor brasileiro. Seus vinhos mantêm uma linguagem franca, generosa e gastronômica, com apelo imediato e boa adaptação à mesa local. Mas, ao mesmo tempo, começam a oferecer camadas adicionais de identidade e ambição, sem romper com a base que construiu sua reputação.
Se essa nova fase se confirmar com a chegada dos lançamentos, a Toro de Piedra pode deixar de ser apenas uma referência entre os chilenos de boa relação qualidade-preço para se consolidar também como um nome de maior densidade dentro de seu segmento, um passo que pode ser tão difícil quanto necessário no atual cenário dos vinhos no mundo.
Notas de Degustação
Sauvignon Blanc Gran Reserva Edición Costera
Um branco que já mostra o cuidado da casa em construir vinhos de impacto aromático sem perder equilíbrio. O nariz entrega frutas amarelas tropicais, notas herbáceas delicadas — como manjericão e grama cortada — e uma mineralidade bastante atraente. Em boca, o vinho reflete com fidelidade essa exuberância aromática, sustentado por ótima acidez e persistência. Mesmo sem passagem por madeira, flerta com a untuosidade, mostrando um Sauvignon Blanc de boa presença e tipicidade.
Carignan 2023 Gran Reserva
Um dos vinhos mais interessantes da degustação. Proveniente de vinhas plantadas em 1976 e com passagem de um ano por carvalho francês antigo, entrega um perfil de concentração média, mas grande profundidade. No nariz, surgem frutas vermelhas e negras maduras, como groselha e cassis, acompanhadas por especiarias, floral de violeta e um discreto couro ao fundo. Em boca, o destaque está na textura aveludada, com corpo e persistência médios, final limpo e integração muito bem resolvida. Um vinho de belo equilíbrio, que reforça como o Chile ainda tem castas menos óbvias a oferecer.
Carmenère 2021 Rincón de los Vientos
Outro momento de destaque. Tratado como um Winemaker’s Choice, o vinho já transmite a percepção de um rótulo de seleção mais rigorosa, quase um vinho de parcela. O nariz traz ameixa, amora madura, especiarias, ervas secas e um tostado que remete a mocha. Em boca, mostra corpo médio a encorpado, textura generosa, taninos macios e final sustentado pela presença da fruta. É um Carmenère sedutor e elegante, que foge dos excessos vegetais e trabalha muito bem o equilíbrio entre tipicidade e polimento.
Potro de Piedra Single Vineyard Family Reserve
Um corte de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, reforça o lado mais emblemático da casa dentro do Valle de Curicó. Os aromas trazem complexidade que soma desde ameixas e cerejas, a anis, notas de baunilha e cacau. Muito bem estruturado, tem taninos bem afilados e um final ligeiramente sucré, muito agradável. Com 93 pontos no Descorchados, este é definitivamente um grande exemplar da qualidade da vinícola.
Laku 2020
Este talvez seja um dos projetos mais curiosos e simpáticos do portfólio: trata-se de um vinho construído de forma participativa, em que mais de setenta colaboradores ajudam a escolher a “receita” final, posteriormente registrada na rolha - este ano, por exemplo, leva Cabernet Sauvignon, Syrah de dois lotes, Carignan, Petit Verdot, Marselan e Merlot também de dois lotes. O resultado é um blend de grande diversidade de castas, que entrega exatamente aquilo que se espera de um projeto assim: ampla complexidade aromática, com frutas vermelhas e negras, notas especiadas, um leve mentolado e uma boca de bom volume, elementos bem integrados, taninos elegantes e final frutado.

Huaquén Carmenère 2022
Uma amostra de tudo que a variedade consegue entregar quando o manejo encontra uma técnica afiada. As frutas vermelhas aparecem com nitidez, acompanhadas por um herbáceo muito discreto e agradável — resultado de manejo preciso da fruta —, enquanto a boca se mostra redonda, equilibrada e muito bem acabada. É um vinho que aposta menos na exuberância e mais no acerto técnico.
Ícono Syrah 2021
Quase um manifesto da casa, tem uma proposta de demonstrar tanto os elementos típicos da casta quanto o terroir da vinícola e da própria região do Curicó. De coloração rubi-violácea num tinto não tão intenso, possui aromas de frutas negras (cassis, amora) com notas bem distintas de especiarias como pimenta e cravo. A boca é bem aveludada, de corpo médio a elevado, e com uma persistência longa, num final ainda frutado muito agradável. Definitivamente tem o potencial de ser o que o nome indica: um ícone.
Toro de Piedra Gran Reserva Late Harvest 2023
Elaborado com Sauvignon Blanc e Semillon, foi a opção de um vinho de sobremesa muito agradável que entrega no nariz frutas em compota, como pêssego, damasco e pera madura, além de notas florais e um toque melado. Em boca, mostra doçura generosa, mas bem equilibrada por acidez suficiente para manter o conjunto fluido e agradável. Um vinho de sobremesa de apelo imediato, macio e muito bem resolvido dentro de sua proposta.



















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