Quinta do Monte d’Oiro reafirma sua identidade em degustação na Mistral com um portfólio de rara coerência
- Guto Martinez

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Com a presença de Francisco Bento dos Santos em São Paulo, vinícola portuguesa mostrou como sua leitura da Syrah, da influência atlântica e da precisão ajudam a construir uma das assinaturas mais consistentes da região de Lisboa
Por Guto Martinez

Em uma degustação especial promovida pela importadora Mistral em São Paulo, a Quinta do Monte d’Oiro apresentou um recorte revelador de seu portfólio e confirmou por que é considerada um dos nomes mais respeitados da região de Lisboa. Com a presença do proprietário, Francisco Bento dos Santos, a prova foi além da simples apresentação de rótulos: mostrou uma vinícola de identidade muito clara, em que a Syrah ocupa papel central, mas em que o verdadeiro destaque está na coerência estilística entre os diferentes vinhos da casa.
Mais do que uma sucessão de bons exemplares, a degustação desenhou uma narrativa de progressão muito bem definida. Dos vinhos de entrada aos rótulos de maior ambição, a Quinta do Monte d’Oiro revelou um trabalho preciso de hierarquia, em que frescor, elegância, volume bem dosado, uso comedido de barrica e forte vocação gastronômica aparecem como elementos recorrentes. Em tempos em que a região de Lisboa ainda é, por vezes, associada a vinhos de grande circulação, a Monte d’Oiro reforça que há ali produtores capazes de transformar terroir e casta em linguagem própria.
A Syrah como pedra fundamental
A Syrah ocupa um lugar central na história da Quinta do Monte d’Oiro desde 1997, quando um varietal Reserva ajudou a consolidar a reputação da casa ao se destacar como uma das grandes referências entre os vinhos portugueses elaborados com castas internacionais. Desde então, a uva deixou de ser apenas uma aposta para se tornar a verdadeira pedra fundamental da identidade da vinícola, ainda que hoje o portfólio dialogue também com castas autóctones e outras variedades estrangeiras.
Essa trajetória ficou clara ao longo da degustação realizada em São Paulo. A casa não apenas confirma o potencial da Syrah em solo português, como demonstra que sabe trabalhar a uva em diferentes registros: do tinto de entrada mais acessível ao vinho de parcela que representa o ápice do projeto.
A linha de entrada e a ampliação do público
A criação da linha Monte d’Oiro, impulsionada pela ampliação da área plantada, mostra um movimento estratégico importante: tornar a casa mais acessível sem abrir mão de sua identidade. Ao alcançar um público mais amplo e potencialmente mais jovem, a vinícola preserva sua assinatura. Na prática, isso se traduz em vinhos em que a fruta aparece de forma mais direta, sem perder frescor, equilíbrio e caráter.
Foi exatamente essa impressão deixada pelos dois primeiros rótulos da prova. O Monte d’Oiro Branco 2023 cumpre perfeitamente o papel de porta de entrada, sem qualquer sensação de simplificação. Cítrico e floral, com uma discreta nota resinada, o vinho mostra acidez marcante, mas sem exageros, resultando em um frescor polido e final limpo. A presença da Viognier surge de forma inteligente: não apenas no ligeiro perfume aromático, mas também no ganho de volume em boca, em um branco que já antecipa a elegância que a casa busca em toda a linha.
Na sequência, o Monte d’Oiro Tinto 2023 revelou um tinto jovem e bastante agradável, em que a fruta aparece de forma clara e direta, acompanhada por pimenta preta, notas herbais, um toque floral de violeta e um leve cacau. Aqui, a Syrah não é protagonista absoluta, mas atua como complemento importante dentro do conjunto. Com pouca passagem por barrica, o vinho preserva a expressão da fruta, ganha taninos macios e entrega equilíbrio, mostrando-se um rótulo acessível, mas com identidade própria — algo que, aliás, parece ser uma marca da vinícola.
Lisboa em sua face mais elegante
Mais do que reforçar a força da Syrah em solo português, a Quinta do Monte d’Oiro ajuda a traduzir uma das faces mais elegantes da região de Lisboa. Trata-se de uma casa que se insere nessa leitura mais refinada da região: vinhos de frescor, precisão, vocação gastronômica e forte identidade de terroir, em contraste com a percepção mais simplificada que por vezes ainda recai sobre Lisboa no mercado.
O primeiro grande salto de ambição veio com o Quinta do Monte d’Oiro Branco 2023, um vinho de outra dimensão em textura, profundidade e volume de boca. No nariz, surgem frutas amarelas como pêssego e damasco, acompanhadas por notas florais e uma ligeira mineralidade. Em boca, o vinho revela um caráter decididamente mais atlântico, quase marinho, com final mais marcado e retorno das frutas amarelas. O volume vem da Marsanne, novamente sem excessos, em um branco que alia riqueza de textura a um recorte de frescor e precisão. É um vinho que mostra que a Monte d’Oiro não trabalha apenas a elegância nos tintos, mas também consegue construir brancos de forte personalidade.
Quando a assinatura da casa se revela
Foi no Quinta do Monte d’Oiro Tinto 2020 que a assinatura da casa apareceu de forma mais didática. Trata-se de um 100% Syrah que, mesmo sendo um antigo vinho de entrada da vinícola, já demonstra de forma muito clara o potencial da uva nas mãos do produtor. O nariz traz frutas negras, especiarias doces, alcaçuz e notas balsâmicas, compondo um conjunto de boa complexidade. Em boca, surgem taninos firmes, mas elegantes, persistência média e acidez equilibrada. É um vinho que traduz com nitidez a identidade da Syrah na Monte d’Oiro e que, justamente por isso, talvez seja um dos rótulos mais interessantes para quem deseja compreender o estilo do produtor com excelente relação custo-benefício.
Se o Tinto 2020 explica a casa, o Quinta do Monte d’Oiro Reserva Tinto 2021 amplia sua escala. Elegância, complexidade e grandiosidade definem bem o vinho, elaborado a partir de pequenas parcelas em que a vinícola concentra suas maiores apostas. Com produção reduzida e maior concentração, o Reserva traz no nariz os traços típicos da Syrah: frutas negras, condimentos, cacau e tabaco, mas soma a isso uma nota mineral atlântica e uma sutil sensação resinada de pinho, resultado do toque de Viognier que “tempera” o conjunto. Em boca, é um grande vinho no sentido pleno da expressão: equilibrado, profundo e absolutamente coerente com a personalidade da casa, sem recorrer a excessos para se afirmar.
A precisão com castas autóctones
Um dos momentos mais interessantes da degustação veio com o Quinta do Monte d’Oiro Tinta Roriz 2021, que mostrou como a vinícola sabe se mover com segurança também fora de sua zona mais evidente. Não se trata de um outsider, mas de um “jogador de posição distinta no mesmo time”, para usar uma definição que resume bem o rótulo. A Tinta Roriz, uva frequentemente associada a uma expressão mais austera e firme, aparece aqui refinada e precisa. O nariz combina frutas vermelhas e negras, cacau, leve defumado e um balsâmico delicado. Em boca, o vinho tem forte vocação gastronômica, impulsionada por acidez marcante, taninos mais presentes e persistência mais longa, com final ainda frutado. É um rótulo que evidencia a precisão do produtor ao interpretar uma casta autóctone sem abrir mão de sua assinatura.
O ápice do projeto
O Quinta do Monte d’Oiro Parcela 24 2019 chega, finalmente, como o ápice do projeto da casa. Elaborado a partir de uma parcela única eleita para compor o rótulo máximo da vinícola, e com vinhas descendentes das originais (e não clones), o vinho carrega uma dimensão quase patrimonial, com material vegetal de genética própria. Não por acaso, já foi apontado por Robert Parker como um possível responsável por mudar o conceito que se tem da Syrah em Portugal.
Na taça, a teoria se soma à experiência, e se confirma em expressão da qualidade. O nariz é exuberante, combinando frutas, ervas, mineralidade e tostados, enquanto a boca alia elegância e potência em um raro equilíbrio. Os taninos, extremamente bem afinados, encontram uma estrutura de alto nível e fazem do vinho uma experiência singular. Mais do que o melhor vinho da prova, o Parcela 24 se impõe como a síntese máxima do projeto da Quinta do Monte d’Oiro.
Há ainda um detalhe importante que reforça esse discurso: nos rótulos de parcela, especialmente nos vinhos de perfil Single Vineyard, até o contrarrótulo ajuda a comunicar o terroir, com a indicação de parcela e lote. É um detalhe que evidencia a confiança do produtor em sua origem e em sua capacidade de expressar o lugar de forma clara, algo raro e sempre bem-vindo, quando a proposta é transformar solo, clima e material vegetal em assinatura.
Uma vinícola de consistência rara
Ao final, a impressão que fica é que a grande força da Quinta do Monte d’Oiro não está apenas em produzir uma Syrah marcante em solo português, mas em construir um portfólio de rara coerência, em que cada vinho ocupa um lugar claro e contribui para uma narrativa maior. Do branco de entrada ao vinho de parcela, tudo parece obedecer a uma mesma lógica de elegância, precisão e personalidade.
Se a Syrah é a língua mais evidente da Quinta do Monte d’Oiro, sua verdadeira grandeza talvez esteja em algo ainda mais difícil de alcançar: a capacidade de transformar identidade em consistência. E poucas vinícolas conseguem fazer isso com tamanha clareza.
Notas de Degustação
Monte d’Oiro Branco 2023
Porta de entrada muito bem construída para o estilo da casa, com perfil cítrico e floral, acompanhado por uma discreta nota resinada. A acidez é marcante, mas sem excessos, o que resulta em um frescor polido e muito agradável. Composto por Arinto e Fernão Pires com uma Viognier que aparece tanto no leve perfume aromático quanto no ganho de volume em boca, com final limpo e bastante preciso.
Preço: R$ 134,87
Monte d’Oiro Tinto 2023
Um tinto jovem e acessível, mas sem perder identidade. As frutas aparecem de forma muito clara no início, acompanhadas por pimenta preta, notas herbais, floral de violeta e um leve toque de cacau. A Syrah surge aqui mais como complemento do que como protagonista, com a Tinta Roriz e a Touriga Nacional marcando a presença de fruta. Com pouca passagem em barrica, o vinho preserva a fruta, ganha taninos macios e entrega um conjunto bastante equilibrado e agradável.
Preço: R$ 162,47
Quinta do Monte d’Oiro Branco 2023
Primeiro grande salto de ambição na prova. Mais textura, mais profundidade e mais volume de boca. O nariz traz frutas amarelas, como pêssego e damasco, acompanhadas por notas florais e uma ligeira mineralidade. Em boca, surge um caráter mais atlântico, quase marinho, com final mais marcado e retorno das frutas amarelas. A Viognier e a Arinto ditam o ritmo, mas a Marsanne (responsável pelos grandes Hermitages brancos) confere volume sem exageros, em um branco de forte personalidade.
Preço: R$ 256,56
Quinta do Monte d’Oiro Tinto 2020
Um 100% Syrah que mostra, já em um antigo vinho de entrada da vinícola, o potencial da uva nas mãos do produtor. O nariz revela frutas negras, especiarias doces, alcaçuz e notas balsâmicas. Em boca, os taninos são firmes, mas elegantes, com persistência média e acidez equilibrada. Um rótulo que expressa com nitidez a identidade da casa e se mostra uma ótima porta de entrada para quem deseja compreender o estilo do produtor.
Preço: R$ 250,29
Quinta do Monte d’Oiro Tinta Roriz 2021
A Tinta Roriz aparece aqui em registro refinado e preciso, muito distante de leituras mais rústicas ou excessivamente austeras. O nariz combina frutas vermelhas e negras, cacau, leve defumado e um balsâmico delicado. Em boca, o vinho exibe forte vocação gastronômica, sustentada por acidez marcante, taninos mais presentes e persistência mais longa, com final ainda frutado. Um belo exemplo da precisão da casa ao trabalhar uma casta autóctone.
Preço: R$ 555,15
Quinta do Monte d’Oiro Reserva Tinto 2021
Elegância, complexidade e grandiosidade definem o Reserva. Elaborado a partir de pequenas parcelas, com produção reduzida e maior concentração, o vinho traz no nariz frutas negras, condimentos, cacau, tabaco, nota mineral atlântica e uma sutil sensação resinada de pinho. O toque de Viognier ajuda a temperar o conjunto. Em boca, mostra equilíbrio exemplar e grande profundidade, confirmando-se como um dos grandes momentos da degustação.
Preço: R$ 658,02
Quinta do Monte d’Oiro Parcela 24 2019
O ápice da prova e o rótulo máximo da vinícola. Elaborado a partir de uma parcela única, com vinhas descendentes das originais, o vinho carrega uma dimensão quase patrimonial. O nariz é exuberante, com frutas, ervas, mineralidade e tostados. Em boca, alia elegância e potência com rara naturalidade, sustentado por taninos muito bem afinados e excelente estrutura. Uma experiência singular e, sem dúvida, o grande destaque da degustação.
Preço: R$ 1.038,16
Vendas no site da importadora: www.mistral.com.br
*Os preços são válidos no momento da publicação e podem estar sujeitos a variação











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