• Guto Martinez

Gonzalo Guzmán em projeto autoral mostra o resgate do vinho chileno sem esquecer da inovação

Enólogo que já comandou a El Principal conhece seu país como poucos - e consegue inovar com uma qualidade ímpar


Gonzalo Guzmán tem um nome já bastante conhecido entre os que apreciam os bons vinhos chilenos, pois já comandou a El Principal, que embora tenha sido criada em 1992 já é uma das principais produtoras de vinhos de qualidade do país, com seu Andetelmo já visto como um ícone local. Mas sua vontade era de se libertar de qualquer amarra, e iniciar seu projeto próprio: foi assim que nasceu a G2, marca que surge tanto como um tributo ao seu passado de glórias quanto como um prenúncio do seu arrojo como produtor.

A proposta de Gonzalo Guzmán é clara nesse novo percurso: elaborar vinhos de produção limitada que expressam a origem e o terroir local de forma mais precisa, realizando um resgate das origens onde nasceu o vinho chileno no séc. XVI. Por isso, e mesmo entendendo que o Chile é um país capaz de produzir grandes volumes, ele foi atrás de locais que possam demonstrar as influências da geografia única do país.

Esse processo não começou no Chile, pois o enólogo, que já trabalhou em diversas regiões, entende o vinho como algo que deve trazer a identidade do local onde é produzido, ou seja, o terroir deve ser impresso nas características particulares de cada uva, com a intervenção humana dando suporte para que cada produto seja um reflexo desse processo, como um maestro que rege uma música sempre na sua própria entonação.

Os vinhedos escolhidos estão em diversos locais, cada um oferecendo condições particulares. No Vale do Maipo, que sofrem grande influência tanto dos Andes quanto do mar, e a proximidade com os Andes favorecem uma amplitude térmica maior durante o ano. Nos vinhedos mais próximos à costa, o mar dá um efeito "moderador" na temperatura, estabilizando os extremos e favorecendo a produção de Alvarinho, variedade de produção inédita no Chile. Já em Itata, considerada a porta de entrada dos ventos frescos do sul, os vinhedos de Cinsault e País se localizam na cordilheira da costa, com maior influência marítima.

O trabalho de Gonzalo Guzmán na busca de recuperação das origens do vinho chileno resultou num grande resgate de áreas que já haviam sido dedicadas à produção vinícola, mas que estavam sendo usadas a plantio florestal de extração (pinus), com um intenso trabalho de recuperação dos solos para que tivessem novamente condições de produção de uvas viníferas. As condições naturais resultantes da soma desse trabalho com o clima local são tão especiais que a produção resulta naturalmente em orgânica, já que pouca ou nenhuma intervenção é necessária.

Muitos compreendem o vinho apenas como um produto refinado, algo delicado, mas Gonzalo Guzmán mostra que o trabalho bruto e o conhecimento histórico têm um peso igual na sua produção: por um lado, é a força física e mental que fazem a vontade (ou o afã) virar execução e resultado, e é o conhecimento adquirido tanto pela compreensão quanto pela experiência que transforam um produto no seu melhor. E estes são talentos que encontramos neste grande nome do vinho chileno.

Notas de Degustação


Alba de Andes Albariño 2020

Alva é a primeira luz do horizonte, nome apropriado ao primeiro Alvarinho chileno. Com coloração amarela mais intensa, já se nota uma intensidade maior, com reflexos esverdeados. O nariz traz frescor, embora não explosivo como os exemplares ibéricos, mas ainda cheios de frutas brancas (melão), levedura e frutas cítricas mais amargas, lembrando um pouco o perfil da Sauvignon Blanc no Chile, além de mineralidade. A boca traz acidez elevada, bastante persistência, uma sensação um pouco maior de calor e untuosidade bem perceptível e ligeira salinidade. É um vinho para ser bebido relativamente jovem, mas talvez aguente uma guarda de alguns anos, lembrando que poderá mudar de perfil.

El Afán 2021

O afã é a dedicação, o empenho e zelo na execução. Elaborado com a tinta galega, a Mencía, que tem uma coloração rubi-violeta quase azulada, com muito brilho. No nariz, traz frutas vermelhas bastante frescas, com nota quase balsâmica, um perfil que lembra bastante os vinhos verdes tintos. Na boca, novamente temos um frescor vibrante, com taninos aveludados, maciez, persistência e final limpo, distinto dos galegos por ser mais caloroso e salino. Um produto único e distinto, claramente resultado de uma técnica de produção impecável, e que mostra como um vinho pode ter a tipicidade da uva mas sem deixar de mostrar como o local imprime a sua identidade.

Este vinho ainda não está sendo importado ao Brasil.

Vontade Cabernet Sauvignon 2019

Vontade é o impulso ou força que leva a pessoa a realizar seus planos ou desejos. A Cabernet Sauvignon aqui está acompanhada de 11% de Syrah e 4% de Carmenère, com coloração rubi-violeta escuro, intenso. Os aromas trazem frutas negras (cassis, cereja amarga) com um mentolado saboroso, especiarias (anis, cravo), e um tostado bem marcante, quase como se o vinho tivesse sido defumado. Bastante encorpado e volumoso, traz intensidade, taninos bem finos e uma longa persistência, com um final ligeiramente sucré quase picante, muito equilibrado e palatável. Traz a tipicidade do Maipo com elegância e refinamento.

Garboso 2019

O garboso é o elegante e primoroso, feito com perfeição. Este vinho, cuja primeira sensação aromática lembra mesmo um perfume, não poderia ter melhor nome. Não é varietal porque temos 82% de Cabernet Sauvignon, com 12% de Petit Verdot e 6% de Syrah, passando 19 meses no melhor carvalho francês do mundo. A coloração novamente é rubi violação intenso e escuro, e o perfil aromático traz as frutas negras (ameixa, cassis quase em licor), notas canforadas, baunilha. A boca vem intensa e estruturada, com taninos um pouco mais evidentes, persistência, refinamento e complexidade. Aqui temos mais elegância que exuberância, um traço claro de muito garbo!

Avaliado com 94 pontos por Tim Atkin, 92 pontos por Robert Parker e 93 pontos pela Vinum.

A importação fica a cargo da Decanter, e se você se interessar por estes vinhos, corra, porque sua tiragem é relativamente limitada e a procura, bastante alta!

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