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  • Foto do escritorGuto Martinez

Manus: a visão humanista e científica no cuidado com a terra

Seguindo o mantra "Vinhos escritos por homens nas linhas da vida", vinícola inova tanto nas variedades plantadas quanto no uso da ciência em favor da qualidade

Gustavo Bertolini
Gustavo Bertolini

Experiência acima de tudo: é assim que Gustavo Bertolini, que junto com seu irmão Diego, define a principal linha de pensamento com que gere a Vinícola Manus, onde nada "tem que ser", e o que vale é a novidade. Neste projeto, a visão humanística coloca a figura humana como responsável por transformar o ambiente de forma a valorizar o que a natureza já oferece, sempre traduzindo da melhor forma os conceitos já sedimentados de terroir e trabalho manual que permeiam grande parte dos melhores produtores de vinho do mundo.

Vindos de uma família de moveleiros e metalúrgicos mas com um gosto pela produção de vinhos que vem de parentes e amigos da região de Encruzilhada do Sul - RS, os irmãos quebram a tradição local de produtores familiares de longa data, e tem hoje 34 hectares de vinhedos plantados, além de 15 de olivais e 2 de nozes pecan. O projeto busca imprimir a relação entre as mãos humanas e o trabalho na terra, com um trabalho perfeccionista que trata das vinhas com um caráter humanista que coloca essa simbiose em primeiro lugar, mas que conta com o auxílio de muita pesquisa e conhecimento acumulado com a experiência adquirida tanto na propriedade quanto dos profissionais que os auxiliam para chegar a vinhos curiosos e de qualidade superior.

O solo da região é marcado por ter uma camada de sedimentos rasa sobre basalto, o que garante as qualidades ideais para produção de vinhas. A camada de rochas subterrânea do escudo cristalino do RS garante drenagem ótima, e a altitude de aproximadamente 420m é semelhante à de grandes regiões produtoras, e com ventos constantes, a água é rapidamente seca e evita problemas nos vinhedos. Tais condições atraíram nomes como Moët & Chandon, que adquiria uvas de muitos produtores na região, e hoje também tem projetos de Casa Valduga, Lídio Carraro e outros, num embrião de uma nova região vitivinícola de excelência que já pleiteia a sua própria Indicação de Procedência.

O caráter inovador pode ser facilmente identificado nas 20 variedades que a Manus produz (embora nem todas ainda com resultado comercial): nos vinhedos, encontram-se Nebbiolo, Teroldego, Barbera, Assyrtiko, Saperavi, Vermentino, Touriga Nacional, Feteasca Neagra, além de Alvarinho, Chardonnay e Pinot Noir. Nos olivais, são três as variedades que produzem o azeite: .

A produção fica sob a supervisão da enóloga Monica Rossetti, brasileira com vasta experiência na região por sua passagem na Lídio Carraro, além de assinar vinhos italianos (Fattoria di Petrognani), franceses (Bernard Loiseau) e portugueses (Osvaldo Amado), e com passagem na mítica Lunelli do espumante Ferrari. Com técnicas de precisão, os níveis de qualidade atingidos são superiores de uma forma mais limpa, sem a necessidade de corretivos, com acidez naturalmente obtida da própria planta.

A produção natural acaba por trazer surpresas: por exemplo, na produção de seu rosé, o tempo em contato com as cascas varia todo ano, e na última produção a concentração foi tão elevada que o resultado foi um Claret, que a casa assumiu após verificar que o resultado tinha sido satisfatório. São as boas surpresas da produção vinícola sem intervenção.

As parcelas são microvinificadas individualmente, para que no produtor compreenda melhor como cada uva se comporta em anos diferentes. Esse trabalho também faz parte de um estudo único desenvolvido com a Embrapa, que inclui até mesmo um trabalho de seleção de leveduras autóctones de interesse enológico, tendo encontrado e testado três variedades (de mais de 50 encontradas). As diferenças das leveduras são notáveis em relação às opções comerciais, em mais uma mostra de que o produtor acerta ao realizar esse trabalho pioneiro de compreender sua região com tudo que ela oferece.

Os vinhos se dividem em três linhas atualmente: Virgo, de vinificação mais franca e direta, sem muita intervenção e com frutas mais intensas e frescas; Liberum, mais autoral e experimental, que busca testar os limites do potencial da região e das castas escolhidas, e a linha Clássica, com os crus da região, cuja observação da produção já passa dos 22 anos e que traz vinhos mais expressivos.

Toda essa busca por inovação aliada ao conhecimento que é gerado e usado diretamente na produção resulta em vinhos únicos, de identidade própria, mas que refletem o que a região tem a oferecer.

Notas de Degustação


Virgo Manus Brut Rosé

Produzido no método Charmat com 40% de Chardonnay, 53% de Pinot Noir e 7% de Barbera (pela acidez), apresenta perlage muito fino e persistente, com aromas de frutas brancas (maçã verde) vermelhas (framboesa) e até pitanga, além de notas florais, tem na boca uma acidez marcante, muito palatável e com final limpo. Um espumante muito refrescante e saboroso.

Virgo Chardonnay 2022

Coloração amarelo palha esverdeado, com aromas de frutas brancas e tropicais, como carambola, tem uma boa estrutura com boa persistência, além de alguma untuosidade. A acidez é elevada, e o final também é limpo. Um vinho bastante fresco, ideal para acompanhar pratos leves de frutos do mar ou mesmo queijos brancos.

Liberum Manus Assyrtiko 2022

Primeira safra da variedade mais plantada de Santorini, o produtor usou uma técnica de maceração com as rochas típicas da região que havia conhecido em produtores da Áustria, e o resultado foi muito interessante: as rochas acabam vindo em forma de mineralidade quase salina na boca. O nariz traz florais brancos com frutas brancas e cítricas frescas, além de um leve resinado agradável; na boca, a acidez não é tão explosiva quanto o Chardonnay, mas mesmo assim é bem marcada, com a mineralidade também bastante presente. Persistência longa e muito sabor no final. Um exemplar único dessa variedade no Brasil!

Liberum Manus Rosé Barbera 2021

Que acidez! Com a coloração rosado alaranjada, o nariz traz frutas de casca amarela (damasco) e limão cravo com um fundo de alecrim, mas a boca traz frutas vermelhas com as notas cítricas. A boca é vibrante, com um caráter mais rápido na persistência, mas com muito sabor. Ótima opção para acompanhar ostras frescas!

Manus Clássico Pinot Noir 2020

Mais uma demonstração de que um Pinot Noir bem tratado pode trazer aromas ditos de "Velho Mundo". Na coloração, já se sai do rubi para um tom de argila, e o nariz traz frutas maduras (cerejas) com notas terrosas e de cogumelos, típicas da Borgonha. A boca é estruturada e equilibrada, com acidez elevada, taninos muito aveludados, persistência prolongada e um ligeiro sucré bem discreto. Os aromas frutados se mostram mais na boca, indicando que a terra foi muito bem tratada nas mãos do habilidoso produtor. Mais um grande Pinot Noir Nacional!

Os vinhos podem ser encontrados na Le Bon Vin (instagram: @lebonvin.br), loja boutique e winebar especializada em vinhos que seguem preceitos naturalistas, e que fica numa galeria na esquina das ruas Augusta e Luis Coelho, em São Paulo.

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