• Guto Martinez

As uvas ancestrais

Técnicas de exame de DNA aplicadas em sítios arqueológicos revelam quais variedades eram mais comuns em tempos romanos e medievais


Algumas variedades de uvas utilizadas na produção vinícola possuem registros históricos que permitem ligá-las a uma determinada região, mas algumas uvas são tão antigas que podem ter mudado de nome, sendo praticamente impossível imaginar como era o vinho feito por elas antigamente - ou era, já que pesquisas científicas conseguiram mostrar semelhanças com vinhedos modernos.


Os cientistas da Universidade de York se valeram de técnicas modernas para comparar a genética de sementes encontradas em 28 sítios arqueológicos de um período que atravessou a Era do Ferro, passando por Roma antiga e o período medieval, e os achados trouxeram grandes surpresas.


Um dos achados mais interessantes da equipe do Dr. Nathan Wales, por exemplo, mostrou que algumas das variedades mais famosas plantadas hoje, como a Pinot Noir, tinham uma identidade genética exata com plantas de mais de 2 mil anos atrás, o que comprovou uma continuidade histórica na sua produção. Em outro achado da equipe do Dr. Wales, foram encontradas amostras de sementes geneticamente idênticas separadas por mais de 600 km de duas escavações de ruínas romanas, evidenciando como eles foram responsáveis pela disseminação da produção de vinhos pela Europa.


Foram os romanos, aliás, os primeiros responsáveis a atribuir nomes às distintas uvas viníferas. A obra "História Natural", de Plínio o Velho (que morreu em 79, na explosão do Vesúvio que destruiu Pompeia), trazia não apenas as descrições das uvas, mas também os métodos de vinificação utilizados na época. Com base nessas descrições e nos achados genéticos recentes, é possível encontrar as variedades usadas e recriar algo muito parecido com o que se bebia há milhares de anos.


Embora a pesquisa não tenha conseguido encontrar uma correspondência exata entre sementes romanas e as modernas, foi possível estabelecer a correspondência com uvas da família da Syrah, resultado da cruza natural das variedades europeias Dureza e Mondeuse Blanche (ainda usada no vale do Loire). Outras variedades também utilizadas pelos romanos incluíam uvas da família Pinot-Savagnin, que incluem a Pinot Noir.


Entre os vinhos medievais, a mais impressionante descoberta foi a longevidade da Savagnin Blanc, ou Traminer: a variedade, ainda utilizada na região do Jura (fronteira com a Suíça) e em partes da Europa Central, demonstrou que toda produção contínua de 900 anos pode ser inteiramente ligada a uma única planta.


A pesquisa do Dr. Wales foi publicada na revista Nature Plants possui um valor histórico inegável, e nos dá uma noção melhor da evolução do consumo e da produção do vinho, mostrando a relevância de algumas variedades que hoje não recebem tanta atenção, mas que provavelmente estiveram presentes em momentos históricos.

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