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Lisboa redescobre sua identidade sem abrir mão da inovação

  • Foto do escritor: Guto Martinez
    Guto Martinez
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Região que já foi associada à quantidade agora busca consolidar sua nova imagem com maior qualidade


Por Guto Martinez

 

Uma das belas paisagens da região de Lisboa
Uma das belas paisagens da região de Lisboa

Durante muito tempo, os vinhos de Lisboa viveram à sombra de regiões portuguesas mais prestigiadas, como o Douro, o Alentejo e a Bairrada. A proximidade com a capital portuguesa e a tradição de produção em larga escala fizeram com que a região fosse frequentemente associada a vinhos acessíveis e de grande volume.

 

Nos últimos anos, porém, esse cenário vem mudando com um trabalho intenso para redefinir essa imagem. Uma nova geração de produtores passou a investir em viticultura de maior precisão, rendimentos mais controlados e projetos que valorizam tanto as castas tradicionais portuguesas quanto variedades internacionais perfeitamente adaptadas ao clima atlântico da região.

 

A degustação realizada durante o evento Vinhos de Lisboa revelou exatamente esse momento de transformação, apresentando um conjunto de rótulos que demonstra a crescente diversidade e qualidade dos vinhos lisboetas, que abraçam a tradição e regionalidade mas não deixam de explorar castas internacionais para surpreender com resultados muito positivos.

 

O Atlântico como elemento definidor

Poucas regiões portuguesas possuem uma influência marítima tão marcante quanto Lisboa. A proximidade constante do Oceano Atlântico proporciona temperaturas moderadas, amplitudes térmicas equilibradas e uma acidez natural que confere frescor aos vinhos, e essas características aparecem claramente em brancos elaborados a partir de castas tradicionais portuguesas.

 

O Murgas DOP Bucelas, elaborado exclusivamente com Arinto, mostrou por que Bucelas continua sendo uma das mais respeitadas denominações portuguesas para vinhos brancos. A combinação entre acidez vibrante, tensão mineral e potencial de envelhecimento reafirma o protagonismo da Arinto na região.

 

Também merecem destaque o Félix Rocha Branco, elaborado com Fernão Pires, e o Grande Reserva Branco, produzido a partir da menos comum Moscatel Graúdo, demonstrando a diversidade de estilos que Lisboa consegue oferecer sem perder sua identidade atlântica.

 

O surpreendente protagonismo da Syrah


Se existe uma casta internacional que parece ter encontrado um segundo lar em Lisboa, essa casta é a Syrah.

 

Diferentemente de regiões mais quentes, onde a variedade pode produzir vinhos excessivamente maduros e alcoólicos, o clima atlântico permite que a Syrah mantenha frescor, equilíbrio e expressão aromática mesmo quando associada a outras variedades, características que apareceram em diferentes interpretações durante a degustação.

 

O Velhos Tempos Reserva combina Syrah e Marselan, revelando perfil moderno e grande concentração. Já o Influente Reserva associa Syrah à Alicante Bouschet, criando um vinho estruturado e intenso sem perder elegância.

 

A Syrah também integra o corte do Friendship Fado Reserva, aqui ao ao lado da nativa Touriga Roriz e da Alicante Bouschet, enquanto o Caves Reserva 2017 utiliza a variedade em conjunto com Castelão e Cabernet Sauvignon, demonstrando sua versatilidade dentro dos blends lisboetas.

 

Mais do que uma simples variedade internacional plantada na região, a Syrah parece estar se tornando uma das assinaturas contemporâneas dos vinhos de Lisboa.

 

As castas portuguesas continuam no centro da identidade regional

Apesar do destaque crescente da Syrah, a degustação também mostrou que o futuro de Lisboa passa necessariamente pela valorização das castas portuguesas.

 

A Touriga Nacional aparece como protagonista no Alma de Lisboa Reserva, enquanto Alicante Bouschet e Castelão demonstram sua força e potência no D. João V Reserva, que também mostra uma passagem mais vigorosa pelo carvalho.

 

São vinhos que unem maturidade, estrutura e tipicidade, reforçando que a região não pretende substituir sua tradição, mas sim ampliá-la.

 

Villa Oeiras: um tesouro chamado Carcavelos

Entre todos os vinhos degustados, porém, um rótulo ocupou um lugar especial: o Villa Oeiras Carcavelos, que representa a recuperação de um dos mais históricos e raros vinhos fortificados de Portugal.

 

Produzido na pequena denominação de Carcavelos, situada entre Lisboa e Cascais, esse vinho quase desapareceu ao longo do século XX em consequência da expansão urbana que transformou a região. Restaram apenas poucos hectares de vinhas e um esforço contínuo de preservação de um patrimônio que remonta ao século XVIII.

 

O resultado é um vinho de extraordinária complexidade, combinando notas de frutos secos, caramelo, especiarias, casca de laranja cristalizada e frutos secos tostados, sustentadas por uma impressionante acidez que impede qualquer sensação de excesso de doçura.

 

Mais do que um grande fortificado, o Villa Oeiras é um testemunho vivo da história vitivinícola portuguesa.


Para mim, a experiência possui ainda um significado especial. Tive a oportunidade de viver em Carcavelos durante um período da minha vida, o que torna cada taça uma viagem afetiva a uma região que guarda algumas das mais belas paisagens da costa portuguesa. Ver o ressurgimento desse vinho histórico e seu crescente reconhecimento internacional é também testemunhar a recuperação de uma parte importante da identidade cultural local.

 

Uma região para acompanhar de perto

A degustação dos Vinhos de Lisboa mostrou uma região em plena evolução. De um lado, castas tradicionais como Arinto, Fernão Pires, Touriga Nacional e Castelão continuam demonstrando toda sua relevância. De outro, variedades internacionais, especialmente a Syrah, encontram condições ideais para produzir vinhos de elevado nível qualitativo.


E, acima de tudo, permanece a singularidade de tesouros históricos como o Carcavelos, lembrando que Lisboa não é apenas uma região de futuro, mas também uma região profundamente conectada ao seu passado.

 

Para os consumidores brasileiros, talvez seja o momento ideal para redescobrir Lisboa. Afinal, poucas regiões conseguem reunir tradição, diversidade, autenticidade e excelente relação qualidade-preço de forma tão convincente quanto ela.

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