Pinot Grigio: a uva que prova que identidade não significa uniformidade
- Guto Martinez

- há 2 dias
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Muito além dos vinhos leves que conquistaram o mercado americano, a Pinot Grigio revela diferentes expressões conforme o terroir e mostra por que continua sendo uma das variedades brancas mais versáteis da Itália
Por Guto Martinez

Há poucas variedades que sofreram tanto com os próprios estereótipos quanto a Pinot Grigio. Durante décadas, seu enorme sucesso comercial (especialmente nos Estados Unidos) ajudou a consolidar a imagem de um vinho simples, leve e despretensioso, destinado ao consumo cotidiano. Não por acaso, muitos consumidores passaram a associar a variedade a um único estilo de vinho, fresco e discretamente aromático.
A realidade, porém, é muito mais rica, e uma degustação reunindo diferentes produtores italianos demonstrou que, mesmo dentro de uma área geográfica relativamente restrita do norte da Itália, a Pinot Grigio é capaz de assumir perfis bastante distintos. A identidade varietal permanece reconhecível, mas intensidade aromática, textura, mineralidade e estrutura variam de forma surpreendente conforme o terroir e as escolhas de vinificação.
O paradoxo da Pinot Grigio
Curiosamente, a Pinot Grigio nem sequer é uma uva branca. Sua casca apresenta tonalidade acobreada, resultado de uma mutação natural da Pinot Noir, característica que explica tanto seu nome ("grigio", ou cinza, em italiano) quanto uma curiosidade histórica.
Durante muito tempo, parte dos produtores realizava uma breve maceração das cascas antes da fermentação, originando vinhos de coloração cobre conhecidos como Ramato. Muito antes dos atuais vinhos laranja se tornarem tendência, esses exemplares já demonstravam que a Pinot Grigio podia oferecer muito mais do que delicadeza e leveza.
Hoje, embora a maioria dos produtores privilegie vinhos brancos elaborados sem contato prolongado com as cascas, alguns ainda preservam essa tradição, permitindo conhecer uma das faces mais originais da variedade.
Em degustação guiada por Gabriela Monteleone na belíssima Soho House, do complexo Cidade Matarazzo, a sequência de vinhos mostrou uma interessante progressão de estilos: nos primeiros rótulos, predominavam os aromas primários de frutas brancas e flores, acompanhados por uma acidez vibrante. À medida que os vinhos avançavam, a fruta tornava-se menos exuberante, cedendo espaço para notas herbáceas, maior mineralidade e uma textura progressivamente mais densa. Provar esta sequência foi como observar uma mesma melodia interpretada por diferentes músicos: a identidade permanecia facilmente reconhecível, mas cada produtor enfatizava características distintas da variedade.
Notas de degustação

Albino Armani
Um Pinot Grigio de perfil clássico e muito preciso. As frutas brancas dominam o conjunto, com destaque para pera e maçã verde, refletindo-se em uma boca fresca, vibrante e claramente gastronômica.
Anna Spinato
Mantém o protagonismo dos aromas primários, agora com caráter mais floral e fruta ligeiramente mais madura, remetendo à maçã. Em boca, conserva o frescor característico da variedade, embora apresente maior sensação de calor e acidez um pouco mais moderada.
Montelvini
Aromas de perfil mais sério, nos quais surgem discretas notas herbáceas. A boca ganha corpo e textura, enquanto a acidez deixa de ser o elemento dominante. A amostra apresentou uma leve carbonatação residual, provavelmente decorrente da própria garrafa.
Bidoli
A fruta torna-se mais contida, abrindo espaço para uma expressão marcada pela mineralidade. Um vinho de maior densidade e excelente equilíbrio, que demonstra como a Pinot Grigio também pode privilegiar estrutura sem perder elegância.
Lamarca
Talvez o rótulo que mais represente a imagem tradicional da Pinot Grigio difundida internacionalmente. Aromas discretos de frutas brancas e perfil direto, acompanhados por uma boca leve, com delicada untuosidade proporcionada pelo discreto açúcar residual. Correto, agradável e bastante fiel ao estilo que tornou a variedade famosa.
Casa Paladin Ramato
O encerramento da degustação trouxe justamente a expressão mais singular da variedade. Elaborado no estilo Ramato, apresenta a característica coloração acobreada obtida pelo contato das cascas durante a vinificação. Aromaticamente, ganha intensidade, com notas de flor de laranjeira, frutas brancas e flores. Em boca, alia maior sensação de calor a uma interessante combinação entre suculência e mineralidade, oferecendo uma perspectiva completamente diferente daquela normalmente associada à Pinot Grigio.
Mais do que desconstruir a ideia de uma variedade "simples", a degustação evidenciou que a Pinot Grigio talvez seja uma das uvas que melhor expressam pequenas variações de terroir e de estilo de vinificação. A fruta, a acidez, a mineralidade e a textura permanecem presentes em todos os exemplares, mas em intensidades distintas, formando vinhos que compartilham uma identidade comum sem jamais se tornarem iguais.
No fim das contas, talvez o maior mérito da Pinot Grigio seja justamente esse: lembrar que uma variedade não precisa ser exuberante para ser complexa.





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